segunda-feira, 14 de julho de 2014

Os Idiotizados E O Que Aconteceu com Eles



        AVISO A POLÍCIA ESTA CONTA E MEU COMPUTADOR ESTÃO SENDO UTILIZADOS POR BANDIDOS À MINHA REVELIA MEXEM NOS CONTROLES, ALTERAM ARQUIVOS

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DENUNCIE O FASCISMO BRASILEIRO que está ATUANDO NA internet ou  INSTITUIÇÕES DE ESTADO COMO RIO DE JANEIRO


        Conto Literário :

         Os Idiotizados e o Que Aconteceu com Eles


                                                                                       Eliane Colchete



           
             Eram um grupo de trouxas, sem perspectivas na vida. Faziam mapas de pessoas a quem invejavam. Talvez espionassem por buracos nas paredes, ouvissem por trás das portas, instalassem rádio-escutas e micro-câmeras, manipulassem spy-ware, para fazer os mapas de pessoas a quem invejavam. Pessoas? Mulheres. Senhoras.  Mulheres com certo tipo físico, com certo tipo físico de quem não pertence a algum esquadrão da morte ou de quem tem aparência de bem estar, ou de quem medita, ou... de que? Não se sabia ao certo. Apenas que não eram adolescentes, nem empregadas de farmácia ou de postos de gasolina, nem eram chefes de escritório ou professoras primárias, e que tinham casa, que cuidavam de suas casas, que tinham maridos, que cuidavam de seus maridos, ou que viviam em concubinato, ou... o que? Não se sabia ao certo.

          Eram certamente mulheres que os trouxas não podiam classificar conforme a escala de quanto ganhavam por mês, se eram “de baixo” ou “de cima”, ou se eram velhas portanto conforme acreditavam piamente os trouxas, assexuadas, ou novas e portanto disponíveis sexualmente. Eram mulheres que pareciam saudáveis, não eram como as mães ou avós dos trouxas, carcomidas pelos trouxas para parecerem muito submissas, muito fracas, mas também para parecerem nazistas, prontas para atacar os estranhos, a qualquer desconhecido.

             Pessoas conservadas, essas mulheres, quase como seriam se o país fosse desenvolvido. Essas mulheres que não pareciam escravizadas a algum poderoso, a alguma  ordem, a algum patrão prontamente identificável. Eram apenas mulheres, aquelas mulheres, que se tornavam perseguidas pelos trouxas.

         Eram os trouxas, O Idiotizado. O coisa-alguma, o ininteligível. A fonte das ações Idiotas. Talvez estupradores. Talvez. Talvez ladrões. Talvez, não. Nada. Sem dúvida, pedófilos. Com mulheres deles, também, com jovens e senhoras deles, também, tão Idiotizadas quanto eles, tão servos de cabeleireiros de esquina, tão abjetos ajoelhados para os grandes capitalistas quanto eles, tão perseguidoras, espiãs, bandidas, quanto eles.

        Talvez gente das seitas de doentes mentais  patrocinados pelo marketing, não seitas onde se encontrasse qualquer coisa inteligível, somente seitas para-religiosas inflacionadas por investimentos de nazistas, que  surgiram com a miséria nova dos tempos novos, da exploração nova, do capitalismo novo introduzido pelo cassetete dos militares, pelo desaparelhamento da cultura, pela desnacionalização, pelo desaparelhamento da educação e  de informação sobre a legitimidade cívica,  pelos espaços vazios do novo urbanismo como aquele em frente à Praça Quinze, seitas de jim jones, seitas de paranoicos falsamente instruídos por paranoicos que gritavam leis bíblicas que não existiam, que nada tinham a ver com a constituição do país ou com a civilização qualquer.

        Talvez gente dessas seitas que injetaram nas ruas milhares de paranoicos a jurar que sabiam tudo da lei do país, que essa lei era o talmude, o apedrejamento mosaico dos homossexuais, das mulheres que não eram suas mães ou avós nem eram adolescentes disponíveis sexualmente, que a lei era a bíblia, unicamente a bíblia, como haviam fielmente sido instruídos, como haviam finalmente encontrado quem lhes ensinasse, como haviam aprendido do pastor, a lei que eles podiam manipular pela leitura da bíblia, no mesmo instante, contra quem se devia, que nunca era quem lhes fazia algum mal, que sempre era o objeto da classificação dos anátemas do pastor, os homossexuais, os cientistas evolucionistas, todos os rebeldes que não iam a igrejas.  Talvez, não. Talvez não fossem dessas seitas. Eram tão trouxas...
          Tão sem nenhuma marca distintiva... 

                Eram homens. Eram idiotas. Os trouxas. Os Idiotizados. Postavam-se com uma palavra na maldita boca – posto que maldita, ninguém em sã consciência quereria o homem trouxa como habitante do seu país, como testemunha do que havia acontecido, de que não havia mais civilização no país, de que o país da ditadura era apenas a ordem do poderoso de plantão, a ordem do qualquer um morto de fome feito Idiota, tornado retardado, sob as ordens e o fascínio idiotizado do qualquer um não-morto-de-fome.

             O trouxa. Falava alto. Falava tentando imitar. Falava tentando imitar a fala rápida do neurótico do filme – o trouxa não sabia que se tratava de um personagem neurótico, para ele havia apenas o fato de ser o personagem de um filme, então ele pensava, eis o galã.

            No filme, na televisão toda, nos jornais, só havia o galã e a garotinha do galã. Não havia intelectuais, não havia escritores e escritoras, não havia artistas plásticos, não havia pessoas mais velhas relatando suas pesquisas, experiência de mundo, descobertas, Nada.  Só havia o jovem galã e a garotinha do galã cuja ação era única, a eles competia provar contra todos os outros possíveis galãs e mocinhas do galã iguais a eles, que eles, aquele e aquela, eram o galã e a mocinha do galã.

              Uma consequência de sua ação era, por vezes, também a anulação, o esmagamento simbólico do adulto, da mulher adulta, e nesse caso, o galã podia não ser jovem, podia ser feio, gordo, velho – ele era o galã e a garotinha do galã. A ação do galã e da garotinha do galã para provar que eram tais, aquele e aquela, podia ser qualquer uma, absurda ou ilegal ou monstruosa, ou como a da gente qualquer, era qualquer uma, era aquela ação conforme a pseudo-lógica do filme, o galã devia apresentar sinais neuróticos, mas ninguém dava por isso sendo trouxa, tudo estava ali para ser imitado, para ser repetido, não havia a pessoa do galã e da garotinha do galã que faziam isso e aquilo, havia a identidade do galã e da garotinha do galã para terem suas ações repetidas porque eram as ações da ordem, eram as ações da autoridade, eram as ações da bíblia, eram as ações do galã e da garotinha do galã da televisão.

               O presidente, os ministros, as mulheres da administração pública, todos na televisão, nos jornais, nos out-doors, nas revistas, nas páginas da internet, eram iguais ao galã e à garotinha do galã. Todos absolutamente iguais – mesmas roupas, mesmos cabelos, mesmos gestos, mesma voz, mesma aparência, mesma imitação da única idade, sobretudo mesmas palavras, mesma mensagem.

                O galã, na mente do trouxa, era como para a gente das seitas, o porta-voz do talmude-bíblia, havia uma só autoridade, uma grande autoridade como a voz da bíblia, a grande autoridade única que odiava mulheres sadias que não fossem suas mães, suas avós, que odiava mulheres que para eles deviam ser trancadas em casa, trancadas por eles, por suas garotas, gente trancada para perecer imediatamente. Na mente do trouxa tudo era só uma grande autoridade como uma gigantesca mão sem braço como a que se viu recentemente num anúncio de televisão, uma mão muito grande que podia vir do ar e pegar os pequeninos seres humanos para dispô-los à sua vontade de mão muito grande, dispô-los imediatamente.

           Com um só gesto. Brusco. Rápido. Imposto e totalmente sem relação com a lógica de ação e decisão dos corpos. A mão vindo de cima, no mesmo instante dispondo os corpos numa consequente posição significativa do que eles deviam fazer. Um homem e uma mulher desconhecidos um do outro sentavam num banco de praça, cada um numa ponta do banco e poderiam talvez ter pensado no outro sentado na outra ponta. A grande mão incidia de cima, prontamente, e os empurrava bruscamente, com força, com violência. Num instante, imediatamente, eles estavam como deviam segundo a grande mão, os corpos juntos, abraçados no meio do banco. Muitas cenas desse tipo, a grande mão onipotente sobre qualquer situação, dispondo os corpos imediatamente, para resultarem na situação devida conforme a vontade da grande mão.

               Pegar seus corpos, dispô-los como uma criança faz com suas bonecas. A grande mão dispô-los-ia conforme o dever, conforme a lei imutável, conforme a ditadura havia feito, conforme a televisão única da ditadura única, a lei vociferada da bíblia para uma sala de trouxas por um homem trouxa, talvez mais alto que os outros, talvez não. O trouxa, o Idiotizado.  Um homem sem qualidades. Com um corpo mediano, quase-alto, com um rosto sem atrativos, sem marcas definidas, branco ou pardo – não havia trouxas negros. Não se viam negros nos grupos de ação do trouxa.
             
              A ação do trouxa.  Eram um grupo de trouxas, deploráveis. Não eram pobres. Não eram abastados. Não eram necessitados realmente. Nada tinham de excessivo. Não eram nada realmente. As pessoas a quem invejavam, postas nos mapas de onde iam e o que faziam, eram seguidas por eles, para serem expostas aos vexames que eles cuidadosamente, meticulosamente, criavam como a um espetáculo para ser exibido nas praças.

           O espetáculo, é claro, consistia de uma cena invariável: de um dos trouxas, ou então trouxas todos juntos, ou ainda, trouxas numa sequência ao longo do percurso, irem repetir com alta voz O Mesmo vaticínio contra a vida da pessoa – não havia coisa alguma além dessa para eles dizerem. As mesmas palavras. O mesmo vaticínio.

               Nada além do mesmo vaticínio de morte, repetido por gente do bando dos trouxas, todos os dias em que essas pessoas iam a algum lugar.

              As autoridades sabiam dos Idiotizados? Ninguém sabe se as autoridades sabiam. Quem eram os Idiotizados? Os homens deste país não tinham mais rosto, não tinham mais que uma neurose coletiva, uma obsessão de que eram eles, todos eles, os vaticinadores. Os homens trouxas, suas garotas trouxas, suas articulações bobas, os homens trouxas, os Idiotizados sem futuro.

               Os Idiotizados começaram a serem alvo de tiros. Os idiotizados haviam feito algumas pessoas rirem, outras pessoas se surpreenderem. Por que estão fazendo aquilo? Não se sabia. O ar parado entre as pessoas, depois das vozes, depois do vaticínio, ficava engraçado – havia acontecido a presepada, não havia? O trouxa xingando, o trouxa falando alto, a trouxa vaticinando para nada, para ninguém, como se não estivesse de fato falando, nem dizendo coisa alguma, falava para o ar, por trás da pessoa que andava na rua, que olhava uma loja, que pegava um ônibus. O vaticínio, sempre o mesmo vaticínio. A vida da pessoa...

            Os Idiotizados começaram a serem alvo de tiros porque não chegavam a obter o mesmo efeito de impacto no seu espetáculo, do que chegariam ao serem vistos caírem, mortos, sangrando, estraçalhados, no ato do seu dizer, no ato do seu vaticinar.

           Eram caídas rápidas, caídas certeiras, os Idiotizados vaticinavam, no meio do vaticínio solene feito para o ar, para o nada, para o ninguém, mas como se fora “para”, especialmente dirigido à pessoa mapeada, perseguida, tudo digno do trouxa, tudo exatamente como um trouxa faria – vaticinavam, caíam rápido.

           Tornava-se um espetáculo realmente as feridas insanáveis, as cabeças estraçalhadas, os pés ou mãos atrapalhados aos movimentos convulsos, no ar, até que nada restava, nada – como o que há na cabeça do trouxa, na ação do trouxa, no trabalho sem proveito do trouxa,  na existência do Idiotizado – Nada. As feridas, os estraçalhamentos, sim, passaram a grande espetáculo.

               As pessoas prestavam estranha atenção no modo como a carne estava dilacerada, como os olhos ficavam vidrados apontando para o ar, para o nada, vidrados para sempre, ninguém tinha a caridade de ir fechá-los, eram os trouxas, os Idiotizados, tudo o que havia de interessante neste mundo concentrava-se na gente ficar olhando para eles, conscientizando-se de como são de fato as feridas, os buracos de bala, o modo como havia trouxas estraçalhados que pareciam alimentados, e como havia trouxas estraçalhados que pareciam trabalhadores braçais da esquina, ou como havia trouxas nas lojas ao longo de uma avenida brega, de bairros pobres, de bairros sem perspectivas, sem futuro, bairros que antes eram promissores, que antes dos trouxas, eram frequentados por pessoas civilizadas. 

              Era agora um fascínio ficar olhando as feridas. Vermelhas, congestionantes, impulsivas, enérgicas, as chagas dos trouxas caídos mortos no ato repetido do vaticínio idiota, expostas ao ar. Deixavam-se os trouxas apodrecerem, esperava-se que apodrecessem, para ver como progredia da ferida ao apodrecimento a aparência irizada das carnes, mas as autoridades vinham e recolhiam os trouxas num grande plástico negro, os corpos dos trouxas desapareciam tão rápido, tão prontamente...


          Era mais um modo das autoridades negarem o que se queria, pensava-se, e os trouxas não podiam apodrecer à vista de todos, só na imaginação, secretamente, à noite, ficava-se a pensar como seria se apodrecessem às vistas – se uma borda de ferida ia ficar azul ou marrom, se de um laceramento da cabeça estraçalhada do trouxa, da boca do trouxa perfurada pela bala no momento do vaticínio, quando ele a abria para falar alto, ou a mão decepada do trouxa quando ele ia pichar o muro com nomes ou rostos, ou falsificar documentos públicos, tudo isso, esfarelava-se ou pelo contrário, tornar-se-ia gradativamente um mingau, derretendo-se – como ia ficar, ao apodrecer?

             Chegou-se a cogitar na venda de ossos dos trouxas. Chegou-se realmente a pensar nisso. Ia ser  um lucro enorme.

          Então alguém fez a pergunta: mas quem está matando os trouxas? Quem atira, quem os decepa, quem os derruba a machadadas? A cidade quedou, pensativa, sobre tão importante indagação e agora, pensavam, como responder que... não sabiam?

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